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segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Está difícil



O que estava feio, ficou pior.

Os números finais dos volumes comercializados de vinhos no mercado brasileiro em 2017, mostram um resultado verdadeiramente desolador.

Vamos aos números: o volume total, somando nacionais e importados, cresceu 25,55% passando de 107 milhões para 134,4 milhões de litros o que é verdadeiramente fantástico. Há muito tempo que o mercado no apresentava crescimento desta magnitude.
O ruim é que este aumento foi exclusivamente dos vinhos importados que cresceram 35% (!!).

Infelizmente os vinhos nacionais diminuíram o volume em quase 19%.

A participação dos vinhos de fora que era de 82% agora é de 88%. Para os nacionais sobrou somente 12%.

Ou seja, a cada 100 garrafas de vinhos finos bebidas no Brasil, quase 90 são importadas.

França triplicou o volume, Espanha cresceu 65%, Itália 45%, Portugal 50%.

Chile continua sendo o campeão com 43% do volume total de importados chegando a quase 5,7 milhões de caixas de 12 unidades ou mais de 51 milhões de litros.

Este salto das importações é devido, principalmente, pela ação forte das grandes redes de supermercado e os e-commerce.

Alguns sites oferecem vinhos a preços muito atrativos e os supermercados estão fazendo a festa, com a importação diretas de cantinas pouco conhecidas às quais pagam menos de dois dólares por garrafa.
Com isso o mercado se encheu de vinhos marca diabo, a preços muito atrativos.

Mendoza está enfrentando uma forte crise e imagino que o Chile vai entrar numa. Não há como sustentar negócios onde não se cobrem os custos.

Como explicar o custo no país de origem de um vinho tinto chileno que um supermercado de Porto Alegre vende a menos de R$ 16,00 na compra de 3 unidades?

Se a esse valor descontamos a margem da rede (20%?), mais de 30% de impostos, o frete, os custos operacionais, a margem do produtor, os insumos como rolha, garrafa, cápsula e rótulo, provavelmente não sobra nada para remunerar a uva.
Ou seja, o que é excelente para o consumidor e excelente para o atravessador, pode não ser tão bom para quem produz e isso pode ocasionar a "morte prematura da galinha dos ovos de ouro".

Infelizmente no Brasil os produtores pagamos caríssimo uma garrafa para vinho ou espumante devido ao quase monopólio, pagamos caríssimo uma rolha devido aos impostos de importação da matéria prima, pagamos caro o frete devido ao custo dos pedágios e ao estado calamitoso das estradas, pagamos imposto a partir da colheita da uva, etc.

Me arrisco em afirmar que para que todos tenham algum resultado, produtor de uva, produtor de vinho e comerciante ou intermediário, pagando impostos e encargos como manda a lei, um vinho fino, não reserva, tem de ser vendido ao preço final de pelo menos R$ 30,00.

Abaixo disto, alguém está abrindo mão de sua rentabilidade. Geralmente é o produtor.

A solução passa por baixar preços aumentando produtividade e ignorando a qualidade?
Com certeza não, a solução é continuar produzindo qualidade a preços justos ignorando as ofertas de ocasião.

Buscar o cliente que escolhe, primeiro pela qualidade e confiabilidade dos produtos, depois pelo preço justo em relação aos praticados pelos concorrentes da mesma categoria.

É fácil? Não, mas talvez seja o único caminho.

Fonte dos números: IBRAVIN - Instituto Brasileiro do Vinho

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Vamos beber bem?




O momento é adequado porque estamos nos aproximando das Festas de Fim de Ano que trazem consigo o festejo, o encontro, a alegria...e a bebida.

Quando proponho “vamos beber bem”, não estou me referindo ao tipo ou qualidade das bebidas, ao final cada um tem seu conceito de qualidade. Me refiro ao modo de beber.

O vinho e os espumantes são bebidas com mediana graduação alcoólica e extraídos de uma fruta que aporta aromas e sabores diferenciados. A maturação e o envelhecimento somam características únicas que agradam, encantam, cativam. Esta mediana graduação alcoólica é fundamental porque permite ao apreciador, sentir facilmente essas diferenças. E esta é a grande diferença com outras bebidas mais agressivas devido ao álcool, como os destilados.

Beber com prazer, sem excessos, sem consequências desagradáveis no dia seguinte, sem mal-estares, é uma tarefa que exige alguns cuidados. Mas no período das festas, os encontros com familiares ou amigos, são propícios aos excessos.

Se você for o anfitrião a responsabilidade aumenta já que será quem “comanda o espetáculo”. Não queira mostrar sua adega toda numa única noite. Conduza o fluxo de alimentos e bebidas adequadamente protegendo seus convidados, procurando, com discrição transformar o encontro numa noite inesquecível.

Vamos às recomendações:

Beba com moderação: Este conceito é totalmente subjetivo, depende de cada pessoa. Se você quer aprender a beber, comece por se observar, ficar atento a seu limite. Tem pessoas que suportam mais, outras menos. Saiba o seu e respeite-lo.

Não misture: Destilados e fermentados não se dão bem, por isso os cuidados devem ser redobrados. Melhor não os misturar. Esqueça das “entradas longas” com vodca, caipirinha, whisky, vermute, rum, etc. São explosivas e induzem ao desastre.

Beba devagar: Os afobados são péssimos bebedores. Travam a língua com incrível rapidez. A bebida deve ser saboreada, apreciada, não engolida.

Beba água: A água ocupa espaço, hidrata e limpa o paladar. Beba em abundância ainda que isso o leve à toalete mais vezes que você gostaria. Prefira água sem gás e não muito gelada.

Acompanhe com alimentos: Isto é fundamental. Nada pior que bebida em estomago vazio. E não precisa complicar, uma torrada, um pão, um queijo, um prato simples tanto quanto um sofisticado, são excelentes companheiros. Beba devagar, comendo, coma devagar, bebendo.

Respeite a ordem: Os vinhos e espumantes, quanto mais maduros ou envelhecidos, mais intensos são de aromas e sabor. Por isso procure iniciar com os mais jovens e no caso dos espumantes, pelos elaborados pelo método charmat. São mais frescos e ligeiros. Depois dedique sua atenção aos mais maduros, produzidos pelo método tradicional.

Evite excesso de variáveis: Se você for o anfitrião, preste atenção neste item.

Alertamos para a sequencia que diferencia uma noite exitosa de uma noite de terror

- Servir somente espumantes – Fantástico, todos ficarão felizes e leves.

- Um espumante e um vinho, branco ou tinto – Perfeita combinação.

- Um espumante, um vinho branco e depois um tinto – Muito boa, com cuidados nas quantidades.

- Um espumante, um vinho branco, um tinto e licor ao final – Grandes chances de resultar em dores de cabeça e mal-estar no dia seguinte.

- Caipirinha de entrada, seguida de um espumante, um vinho branco, um vinho tinto e arrematando com licor – Infalível para recepcionar amigos indesejados, parentes chatos e inimigos. – Mantenha uma UTI móvel de prontidão.

domingo, 22 de outubro de 2017

Meu branco preferido



Confeso que meu hábito de beber espumantes me levou a preferir os vinhos brancos aos tintos. Talvez por ter me acostumado a leveza e ao frescor.
Os tintos, além de oferecer mais risco na compra pela excessiva oferta de vinhos muito jovens e carregados de carvalho, são mais limitados na harmonização.

Detesto brancos nos quais a presença de carvalho, via chips ou barrica, predomina e impede a fruta e o caráter varietal se sobressaírem.

Também tenho dificuldades em consumir produtos com preço elevado que para mim significa superiores a R$ 50,00 - R$ 60,00. Sei que quanto menor a faixa menor é o valor que as pessoas atribuem ao produto mas comigo essa premissa não funciona.

Gosto de garimpar e a minha procura acaba quando acho um vinho confiável. Porque como sempre disse, comprar vinhos é um ato de risco.

Dito isto, e superando uma velha dificuldade resultante da interferencia de uma senhora chamada "ética profissional", vou falar de um vinho que consumo frequentemente quando não bebo meus espumantes...nos quais confio cem por cento.

É o Chardonnay Varietal Aurora, sempre igual (porque Aurora respeita a disciplina), sempre correto, sempre fresco (porque gira), sempre com preço perfeito, inferior a R$ 30,00 nos supermercados e R$ 40,00 nos restaurantes como mostra a Carta acima.

Atenção, é o varietal, porque o Reserva passa por carvalho e para mim, perde um pouco a graça.

Agora que chega o verão vou repetir um velho hábito que as vezes espanta os "especialistas": levar à beira da praia uma garrafa deste Chardonnay a temperatura ambiente, verte-lo num copo de bom tamanho e adicionar duas ou três grandes pedras de gelo. Ele parece acordar, abrir os olhos, os aromas, o sabor e se oferecer radiante, saboroso, leve, convidativo.

O céu será mais azul, o mar mais cristalino, você e suas companhias, mais felizes.

Se conseguir superar a mania de achar que o vinho exige ceremonia, ambiente especial ou formalidade, experimente. E depois me conte.

sábado, 7 de outubro de 2017

Aço, barrica, tonel...segunda parte.



O tema aço inoxidável, barrica e tonel dá para muito. Volto com ele porque é atualíssimo. Farei o que estiver a meu alcance para mudar, ainda que minimamente, a predominância deste binómio. Minha experiência, que conto abaixo, e minha visão do momento atual, me obrigam a faze-lo.

Na minha longa carreira de enologia que iniciou na década de sessenta na Bodega Arizu em Mendoza, na Argentina, tive a sorte de ir aprendendo e entendendo a cada dia, a maravilhosa missão da “elaboração”. Porque os vinhos não se fabricam, se elaboram, se criam, se transformam, se modelam, se aperfeiçoam.

Em Arizu tive a privilegio de conviver com um dos mais respeitados enólogos argentinos: Don Raul de la Mota. Don Raul, como o chamávamos carinhosamente, praticava a enologia sábia, reflexiva, respeitosa, onde o tempo e a boa madeira eram aliados insuperáveis.

Os vinhos, provenientes de uvas maturadas sem exageros, sadias, frescas, repousavam durante demorados anos, em toneis de carvalho da Eslovênia de tamanhos variáveis mas não inferiores a 1.500 litros. Neles, os vinhos maturavam devagar, incorporando migalhas de oxigênio, ganhando caráter, maciez, elegância.

Mendoza teve, no inicio do Século XX, acesso a boa madeira pelas mãos de uma família de tanoeiros da Eslovênia chamada Bajda que chegou a Mendoza após a Segunda Guerra. Nessa época não se pensava em recipientes menores como as barricas, tão em uso nos dias atuais.

Na minha chegada ao Rio Grande do Sul já na década de setenta, a realidade foi outra. A madeira usada era a local, amendoim, grapia e pinho. O inoxidável era inviável pelo alto custo e a barrica impensável. Descobrimos alguns anos depois que as pipas de pinho e grapia, quando não devidamente parafinadas à quente, transmitiam gosto amargo e resinoso.

Logo depois, chegou o aço carbono revestido de tinta epóxi, a novidade da época que permitia conservar os vinhos, em especial brancos, em recipientes inertes. Era a fase da busca de brancos frutados, limpos, delicados. Foi necessário buscar algum gás inerte para manter a superfície impecável e o nitrogênio foi o escolhido. Tempo depois descobrimos que ao absorver o carbônico naturalmente presente nestes vinhos, o nitrogênio deixava os brancos meios “chatos”, planos, com poucos aromas. Veio a mistura, CO2 e N2 e o problema acabou.

Quando os preços ficaram menos pesados foi a vez da chegada do aço inoxidável, agora com cintas para refrigeração, fantásticos. Para nós enólogos empenhados em brancos saborosos era a perfeição na forma de tecnologia. Tínhamos vencido uma etapa brava.

Já nos anos oitenta, quando o objetivo era elaborar um “vinho tinto de guarda”, que desafiasse o tempo, foi inevitável pensar nos tintos de Bordeaux, robustos, maturados e envelhecidos por longos períodos.

Foi a vez da madeira mais nobre, o carvalho e no formato mais adequado, a barrica de 225 litros.

Carvalho americano ou francês? Só uma prova com 50 barricas de cada tipo importadas especialmente nos permitiu concluir que nada substituía o francês, mais intenso, refinado, delicado.

Mas de que florestas, de que granulometria, que grau de porosidade?

A decisão foi Never e Alliers, as medianamente porosas, evitando as feitas com duelas serradas, para evitar vazamentos.

A partir daí parece que o binômio aço inoxidável / barrica se transformou na fórmula mágica para elaborar vinhos tintos de qualidade.

O que quero discutir é se isso é suficiente, se é assim que se atinge qualidade superior.

Me preocupa, em especial nos novos empreendimentos nos quais o “retorno de capital” é calculado em planilhas, matematicamente, a variável TEMPO não seja considerada fundamental.

E aí volta a minha memória a importância do recipiente de madeira de maior tamanho. Porque?

A barrica é fantástica, mas pelo pequeno tamanho os vinhos que passam por ela devem depois, necessariamente, serem envelhecidos na garrafa por menos um ano. Caso contrário o aroma e sabor do carvalho abafará a tipicidade, o caráter varietal, a naturalidade do vinho.

Carvalho muito marcante cansa, satura, impregna e muitas vezes a barrica se nivela aos chips. Se não houver paciência ou capital ou vontade de envelhecer o vinho antes de comercializa-lo, é melhor evitar a barrica nova por longos períodos.

O inoxidável é fantástico, neutro, protetor, seguro, mas impede a maturação que deve ser feita, nestes casos, através de sucessivas trasfegas com as consequências que conhecemos.

Acho que, repetindo minhas palavras do inicio deste artigo, continuo aprendendo, observando e entendendo.

Seria ótimo dar mais importância à madeira de carvalho de maior volume, superior a 1 ou 2 mil litros. Guardar vinhos tintos nestes recipientes ao longo dos anos permitirá voltar um pouco aos velhos tempos onde a corrida era pela qualidade, pelo sabor cativante, convidativo, onde a casta comandava o espetáculo.

Menos álcool, menos madeira, menos fruta, mas sim UM POUCO DE TODOS.

Os Bajda ainda estão em Mendoza produzindo toneis, redondos, ovais, lindos, práticos e eficientes.

Quem sabe alguém tome a dianteira?

sábado, 30 de setembro de 2017

Cantinas frias, vinhos sem alma



Em recente visita a Mendoza com uns amigos, tive de adquirir vinhos para um churrasco ao qual fomos convidados. Fomos ao Carrefour por entendermos que acharíamos uma boa variedade, o que facilitaria a compra.

Procurávamos vinhos Malbec de pelo menos dois ou três anos. Ficamos estarrecidos já que 80% da oferta era de vinhos de 2017, com menos de seis meses de vida. Perdidas na multidão achamos algumas garrafas de vinhos 2015 e 2016 mas por curiosidade levamos um 2017.

Tratava-se de um vinho leve ao extremo, sem aromas, sem sabor, sem alma. Alguns produtores, descaradamente, assassinam a variedade mais representativa de Mendoza, oferecendo, na procura do retorno fácil do investimento, um suco/vinho sem graça.

Na minha opinião, com essa atitude de desrespeito ao consumidor e à enologia clássica, cavam sua própria fossa.

Andando pelas regiões produtoras e visitando algumas vinícolas novas comecei a entender o porque desta situação.
Vi cantinas onde sobra cimento e falta madeira, sobra granito e falta chão batido, sobram luzes decorativas e falta semiescuridão, sobra aço inoxidável e barricas e faltam toneis antigos de carvalho. Falta alma, sentimento, paixão, paciência.

E os vinhos são reflexo disso.

Sei que os turistas adquirem vinhos em lojas especializadas onde pagam caro por vinhos mais maturados, mais dignos, mas é inegável que a queda de consumo na Argentina continuará.

O vinho para consumo caseiro, disponível em preço e oferta, deve ter um mínimo de caráter, estrutura, personalidade para atrair a juventude que caminha para outras bebidas.

Tenho uma profunda saudade da “velha enologia”, da praticada por Raul de la Mota com o qual tive o privilegio de trabalhar na Bodega Arizu. Nesta bodega todos os vinhos tintos eram estacionados em toneis de diferentes tamanhos, medios e grandes, de carvalho da Eslovênia, de muito uso. Passavam pelo menos dois anos antes de serem liberados ao consumo. Saiam adequadamente maturados, macios, saborosos, soberbos.

Felizmente existem pessoas e empresas que mantem viva esta filosofia de trabalho. Posso citar alguns como Angel Mendoza meu colega de Don Bosco, Carmelo Patti com seus vinhos únicos, a Bodega Cave Weinert feita pelo brasileiro Bernardo Weinert com a ajuda magnífica de Don Raul de la Mota, a Bodega Lopez que é uma das mais tradicionais e respeitadas vinícolas mendocinas e outros.

Nesta enologia como falei acima, a madeira cumpre um papel fundamental na elaboração de vinhos tintos, em especial os de guarda. Hoje, nas cantinas novas, a madeira se restringe às barricas de 225 litros, de carvalho francês ou americano, novas.

Parece não existir outras alternativas que não sejam recipientes de grande volume em inoxidável ou barricas.

Na “fabricação” de vinhos de consumo rápido ou de menor preço vale a utilização de chips, micro oxigenação mecânica, gomas, taninos e outras cositas mais.

Antes, a madeira de grande volume cumpria a função de maturar lentamente os vinhos sem aportar aromas e gostos acentuados de carvalho.
O tempo era o maior aliado.
Hoje, o tempo é inimigo do resultado financeiro, do retorno do capital investido.

Espero que possamos voltar um pouco aos velhos tempos, que os investidores entendam que na vitivinicultura o retorno financeiro chegará lentamente, na forma de magníficos vinhos, de muita paixão, de muito orgulho, de muitas garrafas compartidas, de muitos momentos únicos, inesquecíveis.

Que saibam que neste tipo de empreendimento, a pressa sim é inimiga da perfeição.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Descomplicando




Em recente visita a nosso distribuidor em BH, Casa Rio Verde, fiquei gratamente surpreso pela forma criativa que utilizaram para apresentar os vinhos e espumantes nas prateleiras das cinco lojas: por estilo.

Vinhos tintos mais leves para o dia a dia, tintos macios, tintos intensos e tintos complexos. Espumantes frutados (charmat) e complexos (tradicional).

Foi um trabalho de equipe que resultou observando a atitude dos clientes no momento da (in)decisão na escolha do produto a adquirir.

Sem analisar se esta forma é a ideal, se poderia ser diferente, temos de concordar que é uma maneira original de descomplicar o vinho, tirando regiões, safras, castas, cuvèes, indicações, denominações e demais variáveis que confundem, amedrontam, assustam o consumidor.

A indústria vitivinícola precisa entender que o consumidor brasileiro é um novo aficionado, que nada sabe, que precisa ser educado e para isso precisa beber.

É fundamental atrair pessoas que hoje consomem outras bebidas para ampliar o mercado e principalmente criar o hábito do consumo.

Como não ficar amedrontado na frente de uma prateleira na qual há centenas de vinhos de diferentes países, regiões, sub-regiões, variedades, safras, etc?

Como não ficar assustado quando precisa decidir se adquire Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Pinot Noir, Egiodola, Teroldego, Malbec, Carmenere, Barbera, Tannat, Gamay, Syrah, Tempranillo, Carignan, Bonarda, etc. etc?

Sem pensar nas outras tantas de variedades brancas.

Com madeira, sem madeira, safra nova ou safra antiga?

Mais fácil passar para a prateleira das cervejas, rápido, porque também está começando a ficar complicada.

Sem sombra de dúvida que a maior riqueza do vinho é a sua forte ligação com a terra e com a casta com a qual foi feito, sua capacidade de melhorar com o tempo, de ser diferente, único.

É importante ressaltar isso e valoriza-lo, mas será que toda esta complexidade precisa estar na recepção, na porta de entrada do novo consumidor?

Recordo que anos atrás, o Ibravin estudou a possibilidade de colocar em prática um programa de cursos de introdução ao vinho, abrangendo o maior número possível de capitais e grandes cidades.

Cursos simples, introdutórios, didáticos, direcionados a pessoas atraídas pelo vinho mas sem conhecimentos. Através destes cursos iriam sendo criadas “confrarias” nas quais posteriormente seriam oferecidos cursos mais abrangentes. O diferencial era que seriam dados por pessoas locais preparadas por profissionais especializados, de modo a dar permanência e sabor local ao projeto.

Infelizmente a ideia foi abandonada.

Enquanto não há recursos para divulgação da “instituição vinho” de forma massiva, é necessário e importante o trabalho de formiga, lento, localizado, efetivo, focado.

É necessário achar formas para atrair novos consumidores e não fazer as mesmas a cada ano direcionadas aos que já consomem. Muitos destes já se decidiram pelo importado.

Grandes ações do tipo “tiro de canhão” são efêmeras e custosas.

O vinho brasileiro merece e precisa ganhar novos adeptos ou continuará sendo relegado ao papel menor que hoje ocupa.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

O Brasil consumidor




Num estudo iniciado em 2004 chamado Visão 2025 se colocava, como desafio possível, um aumento até esse ano, do consumo de vinhos e espumantes de 1,8 litros/ano por habitante para 9 litros.

As ações propostas eram nas áreas de tecnologia, mercado, legislação e logística com seus respectivos projetos e subprodutos.

Claro que estimar um crescimento tão grande no consumo por habitante foi um exercício de futurologia que tinha pouco de real.

Mais uma vez se concretizou uma velha realidade: o papel aceita tudo, planejar é uma coisa, executar é outra.

De 2000 a 2015, o consumo caiu ligeiramente e nos mantemos no constrangedor consumo inferior a 2 litros anuais.

Mais que um projeto foi um sono, que não se transformou em realidade, porque pouquíssimo do que foi proposto, foi feito ou conseguido. Para citar um exemplo de uma variável fundamental, a carga tributária aumentou consideravelmente assim como reduzidos os prazos para pagamento dos mesmos. Isto tirou competitividade afetando o desempenho.

Creio que o principal problema do baixo consumo é cultural. O brasileiro, de modo geral, não é um consumidor de vinhos porque não conhece, porque não se identifica com o produto e porque está habituado a beber outros produtos.

Todos estamos carecas de saber que uma cultura se muda ao longo dos séculos, e somente acontece quando se oferecem alternativas mas atrativas e acessíveis.

Nos países tradicionais o consumo de vinho é uma herança familiar, faz parte da cultura gastronômica. A garrafa de vinho e a cesta de pão são os primeiros a chegar na mesa. E por isso, o consumo é forte, sólido. Quem bebe uma taça por dia, consome quase 40 litros anualmente.

Que foi feito no Brasil para que o vinho faça parte da cultura dos brasileiros?
Nada, absolutamente nada.

Tens pessoas que afirmam que a cerveja não é concorrente. É concorrente sim, porque é a principal bebida “cultural” da qual o vinho terá de tirar espaço.

Infelizmente as entidades representativas do setor não percebem que é necessário iniciar um trabalho forte e constante, incansável, para atrair novos consumidores.

Atrair quem bebe cerveja, quem bebe destilados, quem nada bebe. Nenhuma bebida junta os atributos que o vinho e o espumante tem.

A diferença é que enquanto as outras investem continuamente em mídia pesada, o setor do vinho repete as velhas ações com feiras e degustações dirigidas ao mesmo público, muitas delas com o objetivo de enaltecer o produto nacional. Nestas ações o foco é ganhar espaço dos importados como se fossem eles os concorrentes.
E não são. Estão do mesmo lado, por isso é necessário juntar-se a eles para ganhar força.

Temos de aumentar o mercado, ganhar novos adeptos, abrir espaços para que todos cresçamos.

Divididos, separados, não teremos capacidade financeira para isso. Unidos e focados, talvez sim.

O setor tem de promover um grande encontro com autoridades, importadores, comerciantes e produtores nacionais e estrangeiros, com o objetivo de criar um plano a longo prazo de ampliação de mercado. Sem desconfianças, sem estrelismos, sem egoísmo.

Estarmos dispostos a investir em recursos a serem aplicados principalmente em mídia nacional, que ressalte a instituição vinho e sua relação com as pessoas.

Se não for feito isto, em 2015 continuaremos ainda com menos de 2 litros, alguns se lamentando por venderem menos, outros alegres porque venderam mais.